quinta-feira, 30 de julho de 2020

Harmonia

[“a morte é passar, como rompendo uma palavra, 
através da porta".] 
(Herberto Helder no seu poema Elegia Múltipla)

Sonho que volto, 
anos depois, a tocar piano. 

                                   [Teclas desafinadas]

Alguns martelos do piano
nem sequer percutem as cordas. 
É a morte que me sorri. 

Primo, então, frenéticamente, as teclas afinadas;
procurando, incessante, a harmonia. 
Encontro, no poema, a perfeição que se revela. 

                                 [Esperança, Amor, Vitória]

Retribuo-lhe, de pénis ereto, 
o sorriso,
mergulhado no Amor, 
mais imponente que a  morte, 
escarnecendo dela: 
                               
  [“Onde está o teu aguilhão, ó morte?” 
1 Cor: 15: 55-57]
Vai à merda morte;
pois não possuis qualquer poder 
sobre os meus versos, sobre o poema. 

Bruno Ribeiro 
30-07-2020, 16:25
(Ao poeta Herberto Helder)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Esperança Ou Crepitar

Escrevo-te um poema.
Espero-te na madrugada do silêncio.
Bendita aurora,
crepitar dos corpos.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Há deuses Que Matam

  Há deuses que matam

Há deuses que matam,
que são como rosas murchas,
na aridez do deserto,
sem Oásis;
que são como cadáveres,
em alto estado de decomposição,
que embebedam,
que manipulam,
o ser humano;
que são poesia inacabada.
Falsa liberdade!
Egoísmo morbido!
Não nos deixemos manipular,
embebedar,
decompor,
por esses deuses.
Sejamos, antes poesia acabada;
não portopoema.
não pseudopoesia.
Sejamos, para com esses deuses,
ateus "praticantes"!
Não acredito em deuses que matam.
Sejamos Homens.
Acredito, sim, "num" Deus
que vivifica,
renova,
recria,
o Homem;
que não o embriaga,
que não o manipula,
que não é como um cadáver,
em alto estado de decomposição;
que não é como uma rosa murcha,
na aridez do deserto,
mas como um botão de rosa balsâmica
em horto fértil;
que é poema acabado.
Que é Oásis!
Verdadeira Liberdade!
Sejamos, portanto, pagãos,
aos olhos dos zoombies
que, sem saberem que o são,
o são;
porque adoram, esses deuses que matam,
com o incenso, que são os seus atos,
o seu egoísmo morbido,
quotidianamente.
Sejamos, portanto, capazes
de sermos palavra,
de sermos poema acabado;
não protopoemas,
não pseudopoemas.
Sejamos rosas balsâmicas,
em horto fértil;
sejamos Primavera, Verão,
no outono e no inverno.
Sejamos poesia
e não apenas discurso,
mas também Palavra.
Porque há "um" Deus que não mata,
mas que vivifica,
o Homem.
Sejamos verdadeiramente Homens;
não apenas de palavras,
mas, e sobretudo, de palavras e atos.
Pois a vida é como as ondas do mar
que veem e vão, num instante.
Sejamos já, vivíssimos.
Não esperemos por o ainda não,
para o sermos.
Sejamos já, simplesmente, Palavra.