quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Vindima

Videiras podadas,
cuja raiz é o amor,
cujos seus ramos
são já carregados de belas gaipas,
prontas a serem vindimadas,
trituradas,
num relador, num lagar,
pelos nossos pés.

Ceara seca

A ceara está seca,
pronta para ceifa,
na forma pura de um verso,
que mais tarde será poesia,
será fermento.
Vejamos como quem ama;
sejamos ébrios de amor.
Sejamos, portanto, sóbrios.
Num mundo de cegos que apenas olham: 
vejamos como quem vê.
Vejamos antes muito além do horizonte. 
Vejamos, antes, como quem vê; 
e não como quem olha, 
não vendo coisa nenhuma.
Olhar e ver, não são a mesma coisa. 
Quem apenas olha não vê.
Mas quem vê, vê muito além do horizonte; 
é capaz até de conseguir observar 
os limites geográficos do universo em expansão.
Sejamos, portanto, como cegos que não o são. 
Pois esses, mesmo sendo, podem ver.
Vejamos, por isso, além do horizonte
e não olhemos apenas. 

A morte vem para todos.
Não há nada mais sublime
senão pensar na morte.
Sim, a morte que morreu.
A morte já não é morte, é vida.
Quem morre, vive.
Não vivamos, por isso,
como quem está morto.
Vivamos antes, como quem morre,
como quem vive.
Porque quem morre, vive;
e quem não morre, não vive.
Não vivamos como ébrios
que, como tal,
não possuem visão lateral.
Vivamos antes, como sóbrios,
ébrios de amor,
que possuem visão lateral. 
Quero gritar;
quero cantar;
quero dançar;
quero sangrar;
quero a vida viver.
Quero ser calor
nas frias noites do deserto.
Quero ser candeia
que não encandeia,
nas frias noites do deserto.
Quero alcançar o absoluto.